14/02/2012
Tem uma sala de aula no meu quintal
onde a lousa fica no céu.
Penduro minhas anotações no varal
não preciso de papel.
O cigarro canta filosofia
A cigarra dança física
Nuvens são apaga-dores
Vagalumes são professores
A aula só e boa quando me tira o sono.
domingo, 18 de março de 2012
Fim de semana -
Esta marca no teu pescoço
deve ter alguma culpada
mas é quase tarde de domingo
e você não se lembra de nada.
Bebe demais.
Agora esta tua insônia
também procura uma culpada
mas é quase de manhã de segunda-feira
e seu coração não acha nada.
Sente de menos.
deve ter alguma culpada
mas é quase tarde de domingo
e você não se lembra de nada.
Bebe demais.
Agora esta tua insônia
também procura uma culpada
mas é quase de manhã de segunda-feira
e seu coração não acha nada.
Sente de menos.
O Pernilongo Poético
17/02/2012
Que bom seria
se o pernilongo se alimentasse
apenas de nossas frustrações
ao invés de nosso sangue.
Dormiríamos tranquilos :
Nenhuma zumbido
de pena alheia
pra nos irritar
ao pé da orelha.
Nenhuma coceira
de vergonha própria
a se aliviar
sob a pele morta.
Nenhum inseticida
espirrando baixa-estima
pra envenenar
os planos da vida.
Mas o Pernilongo Poético, coitado
mal voaria com seu abdômen
tão cheio ficaria
das coisas do Homem.
Que bom seria
se o pernilongo se alimentasse
apenas de nossas frustrações
ao invés de nosso sangue.
Dormiríamos tranquilos :
Nenhuma zumbido
de pena alheia
pra nos irritar
ao pé da orelha.
Nenhuma coceira
de vergonha própria
a se aliviar
sob a pele morta.
Nenhum inseticida
espirrando baixa-estima
pra envenenar
os planos da vida.
Mas o Pernilongo Poético, coitado
mal voaria com seu abdômen
tão cheio ficaria
das coisas do Homem.
O vovô e eu
16/02/2012
Eu estava feliz hoje ao entrar no shopping. Não só porque eu ia assistir a um filme com a minha irmãzinha, mas também porque finalmente eu estrearia à sociedade a minha carteirinha - mesmo que provisória - da USP !
Subimos o primeiro lance de escada rolante e, de repente, vejo a capa do meu livro, no meio do corredor, a andar. Não, não ! Não era capa de livro algum ! Era ele mesmo, o ex-governador, José Serra !
Fiquei sem reação. Não pensei em nada. Não tive tempo pra isso, na verdade, porque uma criaturinha, de no máximo três anos, de vestidinho rosa e branco, o puxava pelo braço, chamando "vovô ! vovô ! "..
E, quem diria, que todo aquele discurso cego e inflamado de ódio e raiva que eu já pensei em jogar na cara deste homem, por tudo que ele fez ou não fez, se esvaziasse, a partir do momento em que a criaturinha de rosa e branco me lembrasse de que, ainda sim, o José Serra é uma pessoa. Uma pessoa de verdade !
Por muito tempo eu devo ter me esquecido. Por muito tempo, ele fora a figura 'inimiga', a figura a ser 'odiada'. Não é por meio de maniqueísmos vis que se constroi um país melhor. Ou, pelo menos, não é o caminho que eu quero seguir.
O que eu quero é saber discutir ideias, conhecer alternativas, saber ouvir, complementar, divulgar, conscientizar ..
Tentei mostrar pra minha irmã que o carequinha de camisa azul já foi governador de São Paulo, mas agora José Serra já ia sumindo de vista ao descer pelas escadas.
" - Calma, calma, cuidado pra desce, Gabi .. " ( eu acho que era esse o nome, não ouvi direito ).
Obrigado, Gabi. E não, eu não odeio o seu vovô.
Eu estava feliz hoje ao entrar no shopping. Não só porque eu ia assistir a um filme com a minha irmãzinha, mas também porque finalmente eu estrearia à sociedade a minha carteirinha - mesmo que provisória - da USP !
Subimos o primeiro lance de escada rolante e, de repente, vejo a capa do meu livro, no meio do corredor, a andar. Não, não ! Não era capa de livro algum ! Era ele mesmo, o ex-governador, José Serra !
Fiquei sem reação. Não pensei em nada. Não tive tempo pra isso, na verdade, porque uma criaturinha, de no máximo três anos, de vestidinho rosa e branco, o puxava pelo braço, chamando "vovô ! vovô ! "..
E, quem diria, que todo aquele discurso cego e inflamado de ódio e raiva que eu já pensei em jogar na cara deste homem, por tudo que ele fez ou não fez, se esvaziasse, a partir do momento em que a criaturinha de rosa e branco me lembrasse de que, ainda sim, o José Serra é uma pessoa. Uma pessoa de verdade !
Por muito tempo eu devo ter me esquecido. Por muito tempo, ele fora a figura 'inimiga', a figura a ser 'odiada'. Não é por meio de maniqueísmos vis que se constroi um país melhor. Ou, pelo menos, não é o caminho que eu quero seguir.
O que eu quero é saber discutir ideias, conhecer alternativas, saber ouvir, complementar, divulgar, conscientizar ..
Tentei mostrar pra minha irmã que o carequinha de camisa azul já foi governador de São Paulo, mas agora José Serra já ia sumindo de vista ao descer pelas escadas.
" - Calma, calma, cuidado pra desce, Gabi .. " ( eu acho que era esse o nome, não ouvi direito ).
Obrigado, Gabi. E não, eu não odeio o seu vovô.
Dialogue
15/02/2012
Primeiro, ouça
Depois, contextualize
Agora, reflita
Só então, opine
E, por fim,
ouça novamente.
Primeiro, ouça
Depois, contextualize
Agora, reflita
Só então, opine
E, por fim,
ouça novamente.
Projeção alguma
14/02/2012-
Talvez, daqui algum tempo
seja bom ter alguém
a quem se possa dizer
mesmo sem jeito
que é de alguma terça-feira
este velho pão
que a cor de algum tapete
não combina com este chão
que faltou algum sal
no caldo deste feijão
que achei algum anel
pra este dedo da tua mão
que talvez alguns filhos
ainda virão.
Talvez, daqui algum tempo
seja bom ter alguém
a quem se possa dizer
mesmo sem jeito
que é de alguma terça-feira
este velho pão
que a cor de algum tapete
não combina com este chão
que faltou algum sal
no caldo deste feijão
que achei algum anel
pra este dedo da tua mão
que talvez alguns filhos
ainda virão.
O vestibulando
19/01/2012
Simplesmente, não é justo.
Talvez, por ter ouvido essa palavra, o vestibular, durante um considerável período da minha escolaridade, eu tenha me acostumado ao que ela significa e representa. Como se ela fizesse parte de um conjunto de leis naturais da vida : o vestibular existe, sempre existiu e - por que não ? - sempre existirá. E, no meu pensamento, ficávamos por aqui mesmo. Até esse ano.
Em 2011, entrei num mundo que talvez não exista em muitos outros lugares, construído entre os enormes rombos entre os pilares estruturais do sistema educacional brasileiro: o mundo do Cursinho. Conheci um material direcionado, professores experts em vestibular, e estudantes dedicados. Aliás, mais do que isso, dedicadíssimos.
Dedicados a ponto se 'sacrificarem' uma parte do horário de almoço no trabalho para estudar; de lerem no ônibus até cansarem as vistas ou se enjoarem durante a viagem; de deixarem de ir em festas e aniversários porque no dia seguinte fariam um simulado importante. Vi salas e mais salas cheias de jovens assim, conscientes de que era necessário esforço pra conseguir a vaga nas melhores faculdades. Porém, nem mesmo o mais esforçado tem uma garantia para o dia da prova.
Teoricamente, o princípio do vestibular é selecionar os concorrentes considerados aptos a cursar o ensino superior. Contudo, espera-se do estudante que ele seja capaz de expor seu conhecimento escolar, adquirido ao longo de 11 anos de sua vida e formação, em uma prova de 5h. Mais de uma década resumida em um cartãozinho com 90 bolinhas pintadas à caneta. Espera-se que todos os candidatos estejam imunes à qualquer adversidade na hora, como alguma doença, ou ao próprio nervosismo, dado que muitas vezes o jovem é levado a pensar que o futuro sua vida inteira depende daquilo e daquela vaga. Esses e muitos outros fatores impedem a escolha de quem realmente está pronto ao invés da escolha de pessoas que sabem lidar melhor com o emocional, ou dos que simplesmente não pegaram uma virose ou não tiveram uma cólica no dia.
Mas o mais frustrante é saber que muitos desses jovens com os quais compartilhei essa etapa, apesar de terem mostrado que são capazes e que são totalmente preparados para um curso superior, não conseguem a vaga. São jovens que querem aprender, que querem qualificação, que querem trabalhar, e pessoas assim deveriam ser tratadas como a maior riqueza de qualquer país do mundo.
O que falta para o Brasil finalmente deixar de ser o eterno 'país do futuro' não é a vontade desses jovens. O que falta é estrutura, vagas, escolas, qualidade, educação, tudo aquilo que fica em segundo plano aqui. Espero que um dia essa não seja a realidade de cada ano de milhares de jovens que, assim como eu, só querem conhecimento.
Por enquanto, ver seu nome naquela lista de aprovados é a realização de um sonho, quando deveria ser um direito. E isso não é justo, simplesmente.
Simplesmente, não é justo.
Talvez, por ter ouvido essa palavra, o vestibular, durante um considerável período da minha escolaridade, eu tenha me acostumado ao que ela significa e representa. Como se ela fizesse parte de um conjunto de leis naturais da vida : o vestibular existe, sempre existiu e - por que não ? - sempre existirá. E, no meu pensamento, ficávamos por aqui mesmo. Até esse ano.
Em 2011, entrei num mundo que talvez não exista em muitos outros lugares, construído entre os enormes rombos entre os pilares estruturais do sistema educacional brasileiro: o mundo do Cursinho. Conheci um material direcionado, professores experts em vestibular, e estudantes dedicados. Aliás, mais do que isso, dedicadíssimos.
Dedicados a ponto se 'sacrificarem' uma parte do horário de almoço no trabalho para estudar; de lerem no ônibus até cansarem as vistas ou se enjoarem durante a viagem; de deixarem de ir em festas e aniversários porque no dia seguinte fariam um simulado importante. Vi salas e mais salas cheias de jovens assim, conscientes de que era necessário esforço pra conseguir a vaga nas melhores faculdades. Porém, nem mesmo o mais esforçado tem uma garantia para o dia da prova.
Teoricamente, o princípio do vestibular é selecionar os concorrentes considerados aptos a cursar o ensino superior. Contudo, espera-se do estudante que ele seja capaz de expor seu conhecimento escolar, adquirido ao longo de 11 anos de sua vida e formação, em uma prova de 5h. Mais de uma década resumida em um cartãozinho com 90 bolinhas pintadas à caneta. Espera-se que todos os candidatos estejam imunes à qualquer adversidade na hora, como alguma doença, ou ao próprio nervosismo, dado que muitas vezes o jovem é levado a pensar que o futuro sua vida inteira depende daquilo e daquela vaga. Esses e muitos outros fatores impedem a escolha de quem realmente está pronto ao invés da escolha de pessoas que sabem lidar melhor com o emocional, ou dos que simplesmente não pegaram uma virose ou não tiveram uma cólica no dia.
Mas o mais frustrante é saber que muitos desses jovens com os quais compartilhei essa etapa, apesar de terem mostrado que são capazes e que são totalmente preparados para um curso superior, não conseguem a vaga. São jovens que querem aprender, que querem qualificação, que querem trabalhar, e pessoas assim deveriam ser tratadas como a maior riqueza de qualquer país do mundo.
O que falta para o Brasil finalmente deixar de ser o eterno 'país do futuro' não é a vontade desses jovens. O que falta é estrutura, vagas, escolas, qualidade, educação, tudo aquilo que fica em segundo plano aqui. Espero que um dia essa não seja a realidade de cada ano de milhares de jovens que, assim como eu, só querem conhecimento.
Por enquanto, ver seu nome naquela lista de aprovados é a realização de um sonho, quando deveria ser um direito. E isso não é justo, simplesmente.
Todo carnaval tem sua oração
25 de fevereiro de 2012
Levando as minhas malas pro carro pra viagem do feriado, bem na frente da minha garagem, vi uma mãe e uma filha andando em direção à portaria do condomínio. Com uma mala numa das mãos e um travesseiro na outra, a filha se despediu da mãe, que parou no meio do caminho enquanto via a moça de vinte e tantos anos se distanciar aos pouquinhos.
- Quando chegar, me liga !
- Tá, tá, mas eu acho que não vai ter sinal ! - veio a resposta despreocupada.
A mãe, que continuava parada no meio da rua, na minha frente, por um segundo tirou os olhos da viajante e tomou o caminho contrário, de volta pra casa. Só dois passos, e deu meia-volta, como se tivesse esquecido de algo. Verificou se a filha não podia vê-la e, de olhos fechados, juntou as mãos na frente do rosto, cobrindo a grande parte da boca que murmurava uma oração, como se sentisse vergonha de que ouvissem as preocupações de uma mãe-coruja. Tão rápido quanto durou a oração, ela entrou em casa.
Mas acho que a prece, tão pura que parecia, acabou por escapar pelos cantos da boca, porque senti chegarem em mim, ameaçando plantar um pouquinho de fé nesse cérebro agnóstico. E parece que deu certo. Quando dei por mim, estava sorrindo, improvisando um sinal da cruz, e pensando com meu cérebro-agora-menos-agnóstico se os pedidos daquela mãe chegariam a alguém.
Levando as minhas malas pro carro pra viagem do feriado, bem na frente da minha garagem, vi uma mãe e uma filha andando em direção à portaria do condomínio. Com uma mala numa das mãos e um travesseiro na outra, a filha se despediu da mãe, que parou no meio do caminho enquanto via a moça de vinte e tantos anos se distanciar aos pouquinhos.
- Quando chegar, me liga !
- Tá, tá, mas eu acho que não vai ter sinal ! - veio a resposta despreocupada.
A mãe, que continuava parada no meio da rua, na minha frente, por um segundo tirou os olhos da viajante e tomou o caminho contrário, de volta pra casa. Só dois passos, e deu meia-volta, como se tivesse esquecido de algo. Verificou se a filha não podia vê-la e, de olhos fechados, juntou as mãos na frente do rosto, cobrindo a grande parte da boca que murmurava uma oração, como se sentisse vergonha de que ouvissem as preocupações de uma mãe-coruja. Tão rápido quanto durou a oração, ela entrou em casa.
Mas acho que a prece, tão pura que parecia, acabou por escapar pelos cantos da boca, porque senti chegarem em mim, ameaçando plantar um pouquinho de fé nesse cérebro agnóstico. E parece que deu certo. Quando dei por mim, estava sorrindo, improvisando um sinal da cruz, e pensando com meu cérebro-agora-menos-agnóstico se os pedidos daquela mãe chegariam a alguém.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
terça-feira, 12 de julho de 2011
Frios
Pois é.. Frio é bom mesmo. Especialmente quando você está dentro do seu quarto, deitado na sua caminha, debaixo de seus cobertorzinhos, depois de ter tomado um copo de leite quentinho. Porém, enquanto isso, moradores de rua tentam sobreviver a outra noite dormindo sobre jornais, ingerindo álcool em excesso para amenizar o frio e, com sorte, com a companhia de um cachorro para enfrentarem juntos a madrugada. Acontece que nem sempre esses mendigos chegam a levantar-se na manhã seguinte. É, a realidade é tão fria quanto essa época do ano.
Humanitário
Costumávamos usar este termo em situações de em que se colocava em prática a solidariedade, o altruísmo.
Porém, alguns atos ignorantes e frequentes do ser humano, desde os mais explícitos, como genocídios, até os mais ocultos - mas não inofensivos - , como racismo e homofobia, nos fazem refletir - ou deveriam - sobre o seu real significado.
Guardadas as honrosas exceções, hoje, são antônimos.
Um dia, quem sabe, poderemos usar o termo "ato humanitário" como um sinônimo de "ato filantrópico", mas, por enquanto, somos obrigados a buscar por outras palavras com o mesmo sentido, que estão cada vez mais escassas no vocabulário "humano".
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Uma das melhores
Fui me deitar para dormir há duas horas. Sempre demoro bastante tempo até dormir. Quando me deito, meus pensamentos surgem de todos os cantos da cabeça, e ficam lá, de um lado pro outro, se embaralhando e trazendo consigo, como enganchados, outros pensamentos ariscos. É por culpa deles que muitas vezes custo duas horas para finalmente dormir. Mas esta noite, especialmente, eles me serviram de algo a mais. Enquanto tentava organizá-los, acabei me deparando com uma memória que estava bem guardadinha, há muito tempo. Essa memória era uma crônica. Uma das melhores crônicas que já li. Me lembrava da história, mas não o seu título, tampouco o autor. Fiquei inquieto, precisava lê-la novamente, revivê-la. Busquei-a, esperançoso, num livro de crônicas, mas não achei. É pra isso que serve o Google; achei na internet em três minutos. Como sempre, me emocionei com esta crônica, e gostaria de reproduzi-la aqui :
A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Rascunhos
Tenho o receio de parecer meio autista escrevendo todas essas linhas aqui, pois provavelmente apenas uma ou outra pessoa as lerão ( um amigo, ou minha mãe, quem sabe ). Me sinto como no tuiter, só quem bem menos fútil hahahah.
Enfim, esse blog não terá finalidade específica. O que provavelmente postarei aqui serão meros relatos, crônicas talvez, reflexões; não usarei o termo 'epifanias', acho que seria exagerado uma vez que a maior parte do conteúdo será simples e leigo. Devo estar sendo humilde demais com tudo isso, mas eu não me sentiria confortável dando muita margem à conclusões alheias de que sou pré-potente, ou de que me considero o dono da verdade. O principal proveito que tenho nesse canal é a própria atividade de escrever, processo importantíssimo na produção de conhecimento, que requer treino. Treinando, é exatamente isso que estou fazendo, como um bom pré-vestibulando, portanto é muito mais de utilidade pessoal do que pública. Afinal, se eu quisesse polêmica e público, criaria um vlog, não um blog. (:
Enfim, esse blog não terá finalidade específica. O que provavelmente postarei aqui serão meros relatos, crônicas talvez, reflexões; não usarei o termo 'epifanias', acho que seria exagerado uma vez que a maior parte do conteúdo será simples e leigo. Devo estar sendo humilde demais com tudo isso, mas eu não me sentiria confortável dando muita margem à conclusões alheias de que sou pré-potente, ou de que me considero o dono da verdade. O principal proveito que tenho nesse canal é a própria atividade de escrever, processo importantíssimo na produção de conhecimento, que requer treino. Treinando, é exatamente isso que estou fazendo, como um bom pré-vestibulando, portanto é muito mais de utilidade pessoal do que pública. Afinal, se eu quisesse polêmica e público, criaria um vlog, não um blog. (:
Mais difícil do que parece
Sob influência e a exemplo de amigos que criaram os seus, a ideia de criar meu próprio blog formigava em minha cabeça há tempos, e numa noite de grandissíssima inspiração - até porque, geralmente, minha preguiça e inércia nessas situações são igualmente grandes- , decidi finalmente criá-lo. Porém, depois de realizar o cadastro no site, me deparo com um grande problema : o nome do blog. Eu já achava que começar o cadastro do site já era uma grande iniciativa por minha parte, e quando me vi obrigado a pensar num nome adequado, disse " ah, depois eu penso nisso"- afinal, eu tinha coisa muito mais importante a se fazer, como qualquer jovem recém-formado no ensino médio em meio a suas férias 'infinitas'- e assim, a criação do blog foi adiada. Ficou à espera de uma outra noite (madrugada) inspirada, e parece que ela chegou, enfim, impulsionada pela leitura de uma postagem ( e ótima, por sinal ) no blog de um amigo. De modo que novamente me encontrei no impasse da intitulação. Desta vez não cedi; pensei, refleti, repensei, matutei.. e eu acho que saiu. Não fiquei por inteiro contente com o resultado, muito embora penso que raramente fica-se inteiramente satisfeito com algum produto de própria autoria. Não sou um seguidor de blogs, vez em tempos dou olhada em randômicos de alguns conhecidos, e não sei se é normal uma postagem de introdução, como esta. De qualquer modo, fui eu quem me dediquei ao grandioso, complexo e penoso processo acima descrito de dar vida a um blog. Portanto ele é meu,eu faço com ele o que eu quiser, e ninguém manda em mim. Quanto aos assuntos que serão abordados no blog, deixo para um outro post, esse já está grande demais. Espero criar o hábito de me 'inspirar' mais frequentemente para mantê-lo vivo. (:
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