14/02/2012-
Talvez, daqui algum tempo
seja bom ter alguém
a quem se possa dizer
mesmo sem jeito
que é de alguma terça-feira
este velho pão
que a cor de algum tapete
não combina com este chão
que faltou algum sal
no caldo deste feijão
que achei algum anel
pra este dedo da tua mão
que talvez alguns filhos
ainda virão.
domingo, 18 de março de 2012
O vestibulando
19/01/2012
Simplesmente, não é justo.
Talvez, por ter ouvido essa palavra, o vestibular, durante um considerável período da minha escolaridade, eu tenha me acostumado ao que ela significa e representa. Como se ela fizesse parte de um conjunto de leis naturais da vida : o vestibular existe, sempre existiu e - por que não ? - sempre existirá. E, no meu pensamento, ficávamos por aqui mesmo. Até esse ano.
Em 2011, entrei num mundo que talvez não exista em muitos outros lugares, construído entre os enormes rombos entre os pilares estruturais do sistema educacional brasileiro: o mundo do Cursinho. Conheci um material direcionado, professores experts em vestibular, e estudantes dedicados. Aliás, mais do que isso, dedicadíssimos.
Dedicados a ponto se 'sacrificarem' uma parte do horário de almoço no trabalho para estudar; de lerem no ônibus até cansarem as vistas ou se enjoarem durante a viagem; de deixarem de ir em festas e aniversários porque no dia seguinte fariam um simulado importante. Vi salas e mais salas cheias de jovens assim, conscientes de que era necessário esforço pra conseguir a vaga nas melhores faculdades. Porém, nem mesmo o mais esforçado tem uma garantia para o dia da prova.
Teoricamente, o princípio do vestibular é selecionar os concorrentes considerados aptos a cursar o ensino superior. Contudo, espera-se do estudante que ele seja capaz de expor seu conhecimento escolar, adquirido ao longo de 11 anos de sua vida e formação, em uma prova de 5h. Mais de uma década resumida em um cartãozinho com 90 bolinhas pintadas à caneta. Espera-se que todos os candidatos estejam imunes à qualquer adversidade na hora, como alguma doença, ou ao próprio nervosismo, dado que muitas vezes o jovem é levado a pensar que o futuro sua vida inteira depende daquilo e daquela vaga. Esses e muitos outros fatores impedem a escolha de quem realmente está pronto ao invés da escolha de pessoas que sabem lidar melhor com o emocional, ou dos que simplesmente não pegaram uma virose ou não tiveram uma cólica no dia.
Mas o mais frustrante é saber que muitos desses jovens com os quais compartilhei essa etapa, apesar de terem mostrado que são capazes e que são totalmente preparados para um curso superior, não conseguem a vaga. São jovens que querem aprender, que querem qualificação, que querem trabalhar, e pessoas assim deveriam ser tratadas como a maior riqueza de qualquer país do mundo.
O que falta para o Brasil finalmente deixar de ser o eterno 'país do futuro' não é a vontade desses jovens. O que falta é estrutura, vagas, escolas, qualidade, educação, tudo aquilo que fica em segundo plano aqui. Espero que um dia essa não seja a realidade de cada ano de milhares de jovens que, assim como eu, só querem conhecimento.
Por enquanto, ver seu nome naquela lista de aprovados é a realização de um sonho, quando deveria ser um direito. E isso não é justo, simplesmente.
Simplesmente, não é justo.
Talvez, por ter ouvido essa palavra, o vestibular, durante um considerável período da minha escolaridade, eu tenha me acostumado ao que ela significa e representa. Como se ela fizesse parte de um conjunto de leis naturais da vida : o vestibular existe, sempre existiu e - por que não ? - sempre existirá. E, no meu pensamento, ficávamos por aqui mesmo. Até esse ano.
Em 2011, entrei num mundo que talvez não exista em muitos outros lugares, construído entre os enormes rombos entre os pilares estruturais do sistema educacional brasileiro: o mundo do Cursinho. Conheci um material direcionado, professores experts em vestibular, e estudantes dedicados. Aliás, mais do que isso, dedicadíssimos.
Dedicados a ponto se 'sacrificarem' uma parte do horário de almoço no trabalho para estudar; de lerem no ônibus até cansarem as vistas ou se enjoarem durante a viagem; de deixarem de ir em festas e aniversários porque no dia seguinte fariam um simulado importante. Vi salas e mais salas cheias de jovens assim, conscientes de que era necessário esforço pra conseguir a vaga nas melhores faculdades. Porém, nem mesmo o mais esforçado tem uma garantia para o dia da prova.
Teoricamente, o princípio do vestibular é selecionar os concorrentes considerados aptos a cursar o ensino superior. Contudo, espera-se do estudante que ele seja capaz de expor seu conhecimento escolar, adquirido ao longo de 11 anos de sua vida e formação, em uma prova de 5h. Mais de uma década resumida em um cartãozinho com 90 bolinhas pintadas à caneta. Espera-se que todos os candidatos estejam imunes à qualquer adversidade na hora, como alguma doença, ou ao próprio nervosismo, dado que muitas vezes o jovem é levado a pensar que o futuro sua vida inteira depende daquilo e daquela vaga. Esses e muitos outros fatores impedem a escolha de quem realmente está pronto ao invés da escolha de pessoas que sabem lidar melhor com o emocional, ou dos que simplesmente não pegaram uma virose ou não tiveram uma cólica no dia.
Mas o mais frustrante é saber que muitos desses jovens com os quais compartilhei essa etapa, apesar de terem mostrado que são capazes e que são totalmente preparados para um curso superior, não conseguem a vaga. São jovens que querem aprender, que querem qualificação, que querem trabalhar, e pessoas assim deveriam ser tratadas como a maior riqueza de qualquer país do mundo.
O que falta para o Brasil finalmente deixar de ser o eterno 'país do futuro' não é a vontade desses jovens. O que falta é estrutura, vagas, escolas, qualidade, educação, tudo aquilo que fica em segundo plano aqui. Espero que um dia essa não seja a realidade de cada ano de milhares de jovens que, assim como eu, só querem conhecimento.
Por enquanto, ver seu nome naquela lista de aprovados é a realização de um sonho, quando deveria ser um direito. E isso não é justo, simplesmente.
Todo carnaval tem sua oração
25 de fevereiro de 2012
Levando as minhas malas pro carro pra viagem do feriado, bem na frente da minha garagem, vi uma mãe e uma filha andando em direção à portaria do condomínio. Com uma mala numa das mãos e um travesseiro na outra, a filha se despediu da mãe, que parou no meio do caminho enquanto via a moça de vinte e tantos anos se distanciar aos pouquinhos.
- Quando chegar, me liga !
- Tá, tá, mas eu acho que não vai ter sinal ! - veio a resposta despreocupada.
A mãe, que continuava parada no meio da rua, na minha frente, por um segundo tirou os olhos da viajante e tomou o caminho contrário, de volta pra casa. Só dois passos, e deu meia-volta, como se tivesse esquecido de algo. Verificou se a filha não podia vê-la e, de olhos fechados, juntou as mãos na frente do rosto, cobrindo a grande parte da boca que murmurava uma oração, como se sentisse vergonha de que ouvissem as preocupações de uma mãe-coruja. Tão rápido quanto durou a oração, ela entrou em casa.
Mas acho que a prece, tão pura que parecia, acabou por escapar pelos cantos da boca, porque senti chegarem em mim, ameaçando plantar um pouquinho de fé nesse cérebro agnóstico. E parece que deu certo. Quando dei por mim, estava sorrindo, improvisando um sinal da cruz, e pensando com meu cérebro-agora-menos-agnóstico se os pedidos daquela mãe chegariam a alguém.
Levando as minhas malas pro carro pra viagem do feriado, bem na frente da minha garagem, vi uma mãe e uma filha andando em direção à portaria do condomínio. Com uma mala numa das mãos e um travesseiro na outra, a filha se despediu da mãe, que parou no meio do caminho enquanto via a moça de vinte e tantos anos se distanciar aos pouquinhos.
- Quando chegar, me liga !
- Tá, tá, mas eu acho que não vai ter sinal ! - veio a resposta despreocupada.
A mãe, que continuava parada no meio da rua, na minha frente, por um segundo tirou os olhos da viajante e tomou o caminho contrário, de volta pra casa. Só dois passos, e deu meia-volta, como se tivesse esquecido de algo. Verificou se a filha não podia vê-la e, de olhos fechados, juntou as mãos na frente do rosto, cobrindo a grande parte da boca que murmurava uma oração, como se sentisse vergonha de que ouvissem as preocupações de uma mãe-coruja. Tão rápido quanto durou a oração, ela entrou em casa.
Mas acho que a prece, tão pura que parecia, acabou por escapar pelos cantos da boca, porque senti chegarem em mim, ameaçando plantar um pouquinho de fé nesse cérebro agnóstico. E parece que deu certo. Quando dei por mim, estava sorrindo, improvisando um sinal da cruz, e pensando com meu cérebro-agora-menos-agnóstico se os pedidos daquela mãe chegariam a alguém.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
terça-feira, 12 de julho de 2011
Frios
Pois é.. Frio é bom mesmo. Especialmente quando você está dentro do seu quarto, deitado na sua caminha, debaixo de seus cobertorzinhos, depois de ter tomado um copo de leite quentinho. Porém, enquanto isso, moradores de rua tentam sobreviver a outra noite dormindo sobre jornais, ingerindo álcool em excesso para amenizar o frio e, com sorte, com a companhia de um cachorro para enfrentarem juntos a madrugada. Acontece que nem sempre esses mendigos chegam a levantar-se na manhã seguinte. É, a realidade é tão fria quanto essa época do ano.
Humanitário
Costumávamos usar este termo em situações de em que se colocava em prática a solidariedade, o altruísmo.
Porém, alguns atos ignorantes e frequentes do ser humano, desde os mais explícitos, como genocídios, até os mais ocultos - mas não inofensivos - , como racismo e homofobia, nos fazem refletir - ou deveriam - sobre o seu real significado.
Guardadas as honrosas exceções, hoje, são antônimos.
Um dia, quem sabe, poderemos usar o termo "ato humanitário" como um sinônimo de "ato filantrópico", mas, por enquanto, somos obrigados a buscar por outras palavras com o mesmo sentido, que estão cada vez mais escassas no vocabulário "humano".
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Uma das melhores
Fui me deitar para dormir há duas horas. Sempre demoro bastante tempo até dormir. Quando me deito, meus pensamentos surgem de todos os cantos da cabeça, e ficam lá, de um lado pro outro, se embaralhando e trazendo consigo, como enganchados, outros pensamentos ariscos. É por culpa deles que muitas vezes custo duas horas para finalmente dormir. Mas esta noite, especialmente, eles me serviram de algo a mais. Enquanto tentava organizá-los, acabei me deparando com uma memória que estava bem guardadinha, há muito tempo. Essa memória era uma crônica. Uma das melhores crônicas que já li. Me lembrava da história, mas não o seu título, tampouco o autor. Fiquei inquieto, precisava lê-la novamente, revivê-la. Busquei-a, esperançoso, num livro de crônicas, mas não achei. É pra isso que serve o Google; achei na internet em três minutos. Como sempre, me emocionei com esta crônica, e gostaria de reproduzi-la aqui :
A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
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